quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O mocho e a águia





Ele sempre observara tudo. Atento a tudo. Nada passara despercebido daqueles olhos de cor duvidosa. Sua vigia não permitia sequer que piscasse. Era sério.


Por vezes o peguei fitando-a, como se não mais suportasse viver sem a sua companhia, agora era ela a sua preterida.


Talvez fosse o calor em excesso ou mesmo sua intensidade, não sei, mas o que percebia era o seu desconforto com aquela presença, sempre irriquieta, expansiva.


Estava apaixonado, tinha certeza. Seus olhos, aquele relógio hipnótico, era capaz de correr todas as horas, as mais preciosas, as que restavam, e que, no entanto, em sua companhia, se perdiam.


Não aguentara mais. Precisava fugir, se esconder, não queria mais isso para si. Odiava-a.


Queria sua presença sempre por perto, como aquilo o preenchia! Como o fazia feliz, como era bom viver!


Sua indiferença já era a única forma que encontrara para se proteger. A apatia o consumia. Como diversas vezes desejou que nunca tivesse a encontrado. Queria morrer.


Desejava-a cada dia mais, seu corpo, suas vontades, seus defeitos, seus sonhos....Agora tinha sonhos. Podia dormir.


Era silencioso. Seu interior era pura pedra. Amorfo, frio, morto.





terça-feira, 27 de julho de 2010

Aforismos parnasianos




teriam flores que cair

uma a uma

pedacos de amores estéreis
perdidas em terras áridas
de existências vazias
dos desejos decadentes


de reverdecer

em si
no se

em mim

sábado, 22 de maio de 2010

Valsa metafísica



Me concede uma dança?

Deslaço meus sapatinhos de cetim

Solto os cabelos que agora tocam o vento

Me dispo do vestido que outrora tanto te encantava

Desvelo-me aos olhos seus todo o mistério

Só por esta noite me desfaço de toda e qualquer ilusão
Elas já não estão cá, mais em mim

Promessas, futuros e sonhos deixo tudo para trás


Pronto
Me concede uma dança?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mimesis

Mimesis

Até os dois primeiros pontos
encontrei o desatino da dor
inclui o desespero de viver
fiz sangrar até morrer

Depois conclui
que amar não é sofrer
que estar não é ser
e por fim
que eu não sou você

domingo, 17 de janeiro de 2010

Verborragia


Verborragia


Componho-me de palavras

Dos pés a cabeça
Desatinos proclamados

Nas veias
A poética liquefeita

Pelos olhos
O prólogo da essência visível

Na estrutura
A calcificação de promessas verbais

Da boca
O silêncio de mil palavras

Pelas vértebras
A cadência de devaneios

Do coração
O aforismo de dodecassílabos apaixonados

No sexo
A dialética do gozo


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A segunda das virtudes teologais




A segunda das virtudes teologais


À espera da ação
Nunca tida

À espera de certa voz
Ainda não esquecida

À espera do amor
Este perdi em despedidas

À espera que o céu se transforme
E que possa reconhecer a lua amarelecida

À espera de respostas
Sobretudo incompreendidas

À espera que o coração cicatrize
Ou que volte arrependida

À espera que voltemos à Pangeia
Agora a distância não mais intimida

À espera por fim de um milagre
O retorno à vida

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mironga do amor




Mironga do amor

O que me assegura a vida
Uma possessão de espíritos

Mantenho meus amores
Numa alquimia de ilusões

Coleciono enganos
São amuletos perdidos

Trago pessoa amada em 4 dias
Paga-me com teu gozo

Disponho de simpatias
Preciso do coração para que funcione

Não temo minha própria sorte
A mentira camufla-se em rosas vermelhas

Só não me peça desencantamentos
Não devolvo o que havíamos combinado.