quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A irmã do sono




Nunca conheci alguém tão paciente.


Confesso que de início isto me causava um comichãozinho de inveja. Tudo era previsível, possível para ela. Como poderia! Sua complacência e temperança a tornava cada dia mais irreal. Sentada naquela poltrona, tinha a mesma expressão fazia séculos. Seus músculos, todos já flácidos e cansados de se mover faziam dela uma estátua viva. Eu sentia que queria viver. E de certo ponto tinha potencial para isso. Mas o que então tinha tirado toda a vivacidade daquela pobre mulher?Todas suas amigas, já falecidas a tinham advertido das consequências da sua triste forma de viver. Nunca escutara ninguém. Era por deveras teimosa. O mais incrível era que sempre fora apontada como a mais corajosa, o exemplo a seguir, a virtude das virtudes. Mais que coragem é esta que nunca arriscara nada? Talvez não tivesse motivos? Mentira. Quantas vezes como que num ímpeto de impulsividade quis sacudir aquela criaturinha e gritar: - Vai querida, tira a mãozinha da boca e deixa todo mundo te escutar! Levanta daí! Corrrrrrreeeeeeeeeeeee!

Mas já sabia que seria em vão. Pessoas não mudam. Elas fingem. E fingir não é verdadeiro, não é mesmo? Então porque fazê-las serem quem nunca serão?Digo, fingir... Ela continuaria ali, parada, esperando, esperando.... E a roda da vida continuaria a girar, girar, girar....E ela...ela seria a última a morrer....Seu nome? Esperança....

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ECO




AMO

TE AMO

SÓ AMO

TEMO

Mirmidões




Quando buscava onde pisar

No porque se mover

No não se acreditar

E porque não se morrer


Compus versos tristes

Construi caminhos tortos

Me escondi para que resististes

Me atentei aos mortos


Confiei na bem aventurança

Quebrei três ou quatro promessas

Me distrai com suas danças

Virei antagonista de minhas próprias peças


Agora sou a que mente

Pelo qual não se confia

Aquela que não sente

Sou sua fotografia


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O mocho e a águia





Ele sempre observara tudo. Atento a tudo. Nada passara despercebido daqueles olhos de cor duvidosa. Sua vigia não permitia sequer que piscasse. Era sério.


Por vezes o peguei fitando-a, como se não mais suportasse viver sem a sua companhia, agora era ela a sua preterida.


Talvez fosse o calor em excesso ou mesmo sua intensidade, não sei, mas o que percebia era o seu desconforto com aquela presença, sempre irriquieta, expansiva.


Estava apaixonado, tinha certeza. Seus olhos, aquele relógio hipnótico, era capaz de correr todas as horas, as mais preciosas, as que restavam, e que, no entanto, em sua companhia, se perdiam.


Não aguentara mais. Precisava fugir, se esconder, não queria mais isso para si. Odiava-a.


Queria sua presença sempre por perto, como aquilo o preenchia! Como o fazia feliz, como era bom viver!


Sua indiferença já era a única forma que encontrara para se proteger. A apatia o consumia. Como diversas vezes desejou que nunca tivesse a encontrado. Queria morrer.


Desejava-a cada dia mais, seu corpo, suas vontades, seus defeitos, seus sonhos....Agora tinha sonhos. Podia dormir.


Era silencioso. Seu interior era pura pedra. Amorfo, frio, morto.





terça-feira, 27 de julho de 2010

Aforismos parnasianos




teriam flores que cair

uma a uma

pedacos de amores estéreis
perdidas em terras áridas
de existências vazias
dos desejos decadentes


de reverdecer

em si
no se

em mim

sábado, 22 de maio de 2010

Valsa metafísica



Me concede uma dança?

Deslaço meus sapatinhos de cetim

Solto os cabelos que agora tocam o vento

Me dispo do vestido que outrora tanto te encantava

Desvelo-me aos olhos seus todo o mistério

Só por esta noite me desfaço de toda e qualquer ilusão
Elas já não estão cá, mais em mim

Promessas, futuros e sonhos deixo tudo para trás


Pronto
Me concede uma dança?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mimesis

Mimesis

Até os dois primeiros pontos
encontrei o desatino da dor
inclui o desespero de viver
fiz sangrar até morrer

Depois conclui
que amar não é sofrer
que estar não é ser
e por fim
que eu não sou você